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quarta-feira, 27 de junho de 2012

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Quem é o pai?





O que escandaliza as pessoas numa gravidez de pai incerto.




Tenho assistido meio enojado ao espetáculo que se montou em torno da gravidez da modelo Carol Francischini, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Especula-se em tom de piada sobre quem seria o pai da criança. Discutem-se os famosos com quem ela saiu, publicam-se listas, só falta que se façam bolões. A moça já disse que sabe quem é o pai e que não quer tornar a informação pública. Foi ignorada. A maioria moral não está interessada em qualquer versão menos picante da história. O que importa é a fofoca e a condenação: como essa mulher não sabe quem é o pai do filho dela? 
É fácil perceber que continuamos julgando as mulheres pelos padrões morais da década de 50. Há pelo menos 30 anos elas trocam de namorados, trabalham, separam-se, engravidam e tocam a vida em liberdade quase absoluta. É evidente que muitas têm mais de um parceiro ao mesmo tempo, assim como fazem os homens. Mas, se uma delas engravida “fora do casamento”, vira bafo. Se não souber quem é o pai, vira escândalo. Diante de uma gravidez fora do padrão, retornamos aos padrões morais das peças do Nelson Rodrigues. A moça cai na boca do povo. 
O moralismo que anima essas reações transforma a grávida que tem dúvidas sobre a paternidade do seu filho em várias coisas. Promíscua. Idiota. Irresponsável. Ou pior. O moralista não se interessa por circunstâncias, não dá atenção a situações emocionais complexas, não quer saber dos dilemas afetivos por trás de uma ou outra relação. Ele já tem suas opiniões. Tudo o que o moralista precisa saber é que há algo de errado, muito errado, numa mulher grávida que não sabe apontar o pai do seu filho.

Será mesmo? Talvez eu esteja descolando da realidade moral brasileira, mas não acho. No mundo relativamente careta em que eu vivo já vi acontecer algumas vezes. Não é um fato banal ou corriqueiro, mas tampouco é uma raridade. Acontece, e o roteiro poderia se repetir com qualquer um: a mulher está ficando com dois homens, engravida, e não sabe com 100% de certeza de quem é o bebê. Tira a dúvida conversando sobre datas com o ginecologista ou faz um exame. A incerteza se dissipa em horas ou dias. Pronto. Seria o fim do mundo ou caso de execração pública? Claro que não.

Acho que por trás do sentimento de escândalo está a convicção mal disfarçada de que as mulheres deveriam ser castas. Se isso não for possível, ao menos monogâmicas. Certamente elas jamais deveriam ser relacionar com mais de um homem de cada vez. Ainda que sejam solteiras. Quando uma mulher recusa esse limite, envolve-se com mais de um cara e engravida, vira um alvo fácil: “Quem mandou ser galinha?” Se fosse um homem a transar com duas ou três ou quatro mulheres estaria tudo bem? Claro que sim. Afinal, ele é homem...

Antes que me chamem de Polyana, não acho que essa situação seja simples. Certamente não recomendo que as moças saiam por aí engravidando de pai incerto. Na verdade, desaconselho firmemente. Sei por um milhão de razões que a gravidez deveria começar cercada de certeza e aconchego, não de dúvidas. E suponho que mulheres nessa incerteza essencial vivam momentos terríveis. O risco do desamparo afetivo ou material é enorme. Dito isso, eu sei também que milhões de seres humanos excepcionais nasceram de relações circunstancias, ilegais ou totalmente inadequadas. E que uma multidão ainda maior veio ao mundo quando seus pais perfeitamente casados não queriam ou não estavam prontos para recebê-los. Todos eles estão aí, contrariando estatísticas e desafiando convicções. Sendo felizes e fazendo os outros felizes.

Eu não sei quem é o pai do filho da Carol Francischini e nem me interessa saber. Ela diz que sabe. Afinal, a gravidez é dela. A vida é dela. O que o resto de nós poderia oferecer num caso desses é respeito. No mínimo, porque nenhum de nós sabe com 100% de certeza as circunstâncias em foi gerado. E se houvesse lá, no início da nossa vida, uma multidão de pessoas espiando, fazendo perguntas e piadas? Eu não gostaria que isso tivesse acontecido comigo, e não recomendo que aconteça com ninguém.

Texto do fabuloso - Ivan Martins - Produtor Executivo de Época

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

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FILHOS DE PAIS HOMO ( "RICK MARTIN" ) SER UM GRANDE PAI ESTANDO DISTANTE !


O maior desafio para um menino que está ‘virando homem’ é ter que comprovar sua virilidade, sua masculinidade; todos sabemos como as regras masculinas são severas e apenas heterossexuais. Ser homem é o oposto de ser mulher e também o contrário de ser homossexual, gay, viado, bicha, ou muitas outras denominações desqualificadas, pejorativas que denotam o preconceito e estigma que cerca a vida de quem não é heterossexual.

Mas o que acontece com um menino que é homossexual? Ele já sabia disso desde pequeno? Ele se acovarda e engana a si mesmo e aos outros se casando, sendo pai?

Um menino cresce dentro de regras heterossexuais, ele pode não saber quem é ainda, mas já sabe que ser homossexual não é bom, ou é feio, errado ou pecado; o interesse pelo ‘outro sexo’ marca para todos o despertar da sexualidade. É muito raro alguém saber que desde criança é um gay, mesmo porque “saber algo sobre nossa sexualidade” só acontece depois das dúvidas e incertezas que a adolescência nos impõe. Assim dependendo do maior ou menor rigor na educação, ambiente, nos próprios valores, crenças e oportunidades, esse menino poderá ter maior ou menor dificuldade de se ver como homossexual e se aceitar ao longo da adolescência e juventude.

A grande maioria dos pais que são gays vivenciou um casamento heterossexual com a mulher por quem se apaixonou na juventude e com quem teve seus filhos biológicos. Um pequeno número é pai via adoção, mas ele em geral também trás em sua história de vida relacionamentos com mulheres no início da juventude, já que era o esperado de um menino para ele ser homem.

Quando um homem se percebe atraído e homoafetivamente interessado por outro homem, ele passa por importantes decisões e transformações internas. Ele precisa refazer a imagem que tem de si mesmo como homem e pai, que até então estavam delimitadas e definidas por regras heterossexuais apenas. Ele deve enfrentar o processo de se aceitar, se assumir e decidir se revela ou não – e para quem – sua homoafetividade.

A homossexualidade emerge como possibilidade consciente de orientação sexual após a adolescência – entre adolescência e adulto jovem, depois de viver aquelas inseguranças sobre sua própria sexualidade – e isso acontece na juventude. Em muitas pessoas até mesmo mais tardiamente, na idade adulta. A família, esposa, filhos, familiares, amigos, a sociedade enfim não aceita, não entende que a homossexualidade não é uma ofensa à eles, ou que sua expressão mais tardia não é uma simples covardia de alguém que demorou muito para se aceitar um gay. Ou ainda, que é comum ouvirmos, a homossexualidade não é uma expressão degenerada e doentia da sexualidade depravada de um homem que desistiu de ser um bom pai e bom marido.

Nosso trabalho com os pais gays tem se mostrado uma importante ferramenta que lhes dá suporte para que se aceitem e superem esses conflitos, como podemos perceber no relato a seguir.

“André” (42 anos, filha 17 anos; filho 11 anos) está há mais de quatro anos afastado dos filhos que moram com a ex-mulher em outra cidade. Seu relato nos revela que existe sim um grande investimento pessoal para se assumir um homem pai e gay.

‘”…A energia das nossas atitudes e intenções é a que nos movimenta vetorialmente em direção daquilo que desejamos e/ou merecemos. A despeito de milhões de processos, argumentos, provas falsas que demoraram para serem desmentidas, audiências, o que vai valer no final é o sentimento que moveu e move cada um dos envolvidos (incluo as crianças)… Fui acusado de espancar meus filhos, de trancá-los sem comida e subliminarmente até mesmo de os expor sexualmente…isso foi há 4 anos e após perícias psicológicas e sociais, com horas e horas de terapia judicial, com testes para todo tipo de psicopata, além de visita de assistente social em minha casa, abrindo geladeira e armários, concluíram que eu era um grande pai…”

Percebemos através desse depoimento que existe uma recompensa, que é viver com a certeza de quem você é com a sua própria verdade; ser um gay não inviabiliza ser de fato um grande pai. Entendemos que há que se ter muita coragem para enfrentar o sofrimento de processos destrutivos que duram anos sem sucumbir; hoje André vive com um companheiro, trabalha muito e está assumindo uma profissão nova e gratificante, paralela à que até hoje exerce. Apesar da mágoa de não ter os filhos perto de si, consegue se ver como um vencedor; sente orgulho por ter tido coragem de se assumir, de ser quem é, mas também espera que o tempo traga de volta a verdade e a justiça que os filhos hão de conhecer.

Nem sempre existem conflitos graves por parte da família – esposa e filhos – quando um homem e pai assume sua homoafetividade. Mas geralmente é um processo complexo principalmente se esse “se assumir” foi antecedido por muitos anos de silêncio, de medos e segredos. É sempre difícil um homem e pai se perceber, se aceitar e se assumir como gay, viver abertamente um relacionamento homoafetivo; ele tem receio de que sua homoafetividade traga problemas para os filhos, já que sem dúvida vivemos numa sociedade intolerante às diferenças e à diversidade.

Dependendo da cultura, crenças, valores morais, familiares e religiosos esse processo todo pode ser menos sofrido ou mais facilitado. Algumas religiões, bem sabemos, pregam que homossexualidade é pecado, que é doença; para algumas famílias o apego aos valores tradicionalistas, sexistas e heterossexistas de família também afastam, ou dificultam aceitar o que é diferente, outras formas de família e a paternidade não heterossexual. Enfim, depende muito de como as relações culturais, sociais, profissionais, familiares e pessoais estão organizadas para um homem pai e gay se aceitar, se assumir e viver plenamente sua própria verdade.

O que observamos em absolutamente todas as histórias de vida que chegam a nós é que é sempre um grande alívio quando a verdade sobre a própria homoafetividade pode ser tratada de forma natural, assumida pelo homem que é pai e gay; ou seja, quando ele mesmo se aceita. Esse é o começo do processo de se assumir para então decidir se deve ou não revelar a homoafetividade para outros que merecem saber sobre essa particularidade, como alguns amigos, familiares, a mãe dos filhos e os filhos. Veja oportunamente na sessão revelação da homoafetividade algumas dicas de como isso pode ser feito.
texto publicado no site http://www.homopater.com.br